quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Soldadinho de Espuma

Metro em Berlim - registos do meu diário gráfico

Devia ter uns dezanove anos de idade. Uns dezanove anos tímidos, inseguros de calejar os olhos dos outros e os gritos de outras bocas. Mas ali estava. De mochila caída entre as pernas, pesadas das botas que carregavam e do seu aperto. Os verdes dançavam na roupa demasiado grande para o seu corpo.

A nacionalidade estampada nos ombros mostrava um orgulho e uma vontade que eu não encontrava nos próprios olhos do rapaz. Mas ele ali estava. A caminho de outros verdes, de outros gritos, de outras roupas pesadas.

A dada altura, o rapaz tirou cuidadosamente do seu bolso um embrulho carinhoso. Um lanche que imagino ter sido preparado por uma mãe condescendente ou um pai vaidoso. Imagino o que o rapaz sentirá neste momento. Na sua idade os rapazes na Alemanha são obrigados a optar entre o serviço social e o militar. Especulo sobre a razão que o terá levado a escolher o militar. Terá sido vontade própria? Terá querido surpreender alguém, ou surpreender-se a si próprio?

Eu só o vi por breves minutos da minha viagem de metro. Não saberei nunca as motivações da sua vida. Sei apenas ter visto o peso dos seus olhos, das suas botas, da sua mochila, da sua roupa demasiado grande para o corpo amedrontado.

12 comentários:

Captain Love disse...

Por vezes o peso da vida recai sobre os nossos ombros sem nós darmos conta. Decisões que tomamos hoje, repercutem-se no espaço e no tempo como um eco daquilo que hoje construímos para amanhã habitar.
O peso do passado e a leveza do futuro são aqui encaradas por um olhar triste, perdido e fugaz, uma passagem necessária para um futuro que se espera risonho. As armas, batalhas e guerras que diariamente temos de travar nem sempre serão necessárias.

E esta, será?

JP disse...

"(...)como as bandeiras de um diminuto exército vencido, e as pétalas como trapos sugerem-me que é tempo de empreender a retirada"
Serviço militar obrigatório não me parece o futuro, mas sim o passado!

Ana Rita disse...

e quem e' que ja fez uma cadeira?!?? :D muito mais descansada :)

Pois e'...:)

Parabens (:

M. Reis disse...

SOBRE A ARTE: DE BERLIM A LAGOS (ALGARVE)...
"O rapaz do metro" ou "o soldadinho de espuma" é uma boa e linda forma de te despedires de Berlim. Pelo retrato e pelo texto. A fragilidade do ser humano, a presença imaginada mas real das emoções dos homens e das mulheres que marcam ou marcaram o jovem-criança envolvido pela espuma da guerra ou pela "espuma dos dias", a guerra mais próxima do que longínqua do lugar onde estás (porque 1945 não foi há muito tempo e cada dia parece, muitas vezes, uma guerra de todos com todos...), o rosto separado do corpo como se a guerra estivesse já ali a retalhar a carne viva... O teu "soldadinho" é uma versão ligeiramente diferente e original do "Rei D. Sebastião" do José Cutileiro de Lagos:os olhos do teu jovem são, talvez, mais tristes mas o infinito é o mesmo ponto de fuga, o camuflado espumoso são as grandes luvas do Rei e a boina substituíu o enorme capacete que jaz aos pés da estátua de Lagos. A arte é isto: liga os homens e as mulheres, as cidades e os sentimentos, os tempos e as distâncias; descobre mundos, anula fronteiras, resolve conflitos, permite sentar com prazer à mesma mesa gente de todas as raças e de todos os credos. A arte é, portanto, o oposto da guerra. Mas é preciso que se tenha vontade para se "fazer ou contemplar arte". E que fazer para se descobrir essa vontade e essa motivação?
Há muito tempo que não escrevia no teu Diário "Lissabon to Berlim". Na véspera de deixares uma cidade que marcou tão profundamente a História Cultural, Filosófica, Política, Militar e Artística da Europa não podia deixar de reconhecer a tua coragem e o teu esforço para continuares a conhecer e a dar a conhecer os lugares que têm feito a tua história.
Beijinhos e até amanhã.
O papá.

M. Reis disse...

JÚLIO QUINTINO: 1927-1978
Post-Scriptum: Permite-me, filha, uma breve palavra de recordação do teu avô Júlio (que eu não conheci) para as pessoas que nunca ouviram falar dele. No dia 19 de Fevereiro teria feito 82 anos. A Câmara Municipal de Lagos decidiu atribuir o nome dele a uma rua da cidade como reconhecimento pelo seu trabalho como homem de ciência nos domínios da Geotermia e Geofísica nos Açores, de Cultura e Divulgação Científica e de Intervenção Política contra o regime de Salazar. As palavras de agradecimento proferidas pela tua mãe, Joana Quintino, na sessão solene na Câmara foram muito bonitas e toda a gente, mesmo os que, aparentemente, seriam mais insensíveis, a felicitaram pela maneira como falou do pai. Um antigo colega da mamã, o José Mota Vieira que trabalhou com o teu avô quando tinha 16 ou 17 anos numa investigação geotérmica, mal conseguiu balbuciar algumas palavras sobre ele; e a tia Lurdes e o Joaquim Marreiros reuniram a família para celebrar o acontecimento. A mamã terminou adaptando os versos da Natália Correia: "agora ficámos com o basalto e as flores". Mas não só: ficámos com o nome dele escito na pedra e a sua memória mais viva entre nós.
Beijinhos do papá.

Ana Rita disse...

Vais-me fazer tanta falta aqui, nem imaginas! Vou ter saudades de irmos a Anna. De andarmos stressadas com os trabalhos, das nossas aventuras, de TUDO!!

Mas sei que ao msm tempo estas bue feliz por ai estar =) e que vais estudar em portugues =)

Obrigada por tudo, mesmo. Quero continuar a ver aqui os teus desenhos fantasticos!

Küss

June disse...

Não tenho palavras para expressar o que senti ao ler o teu post. Não tenho igualmente palavras para dizer o que senti ao ler os comentários do teu pai, sobretudo quando fala da homenagem prestada ao tio Júlio. Mas assisti à cerimónia e bebi as palavras da tua mãe e as lágrimas que sem destino teimaram em molher-me a cara. E, como as minhas, vi muitas lágrimas na cara dos outros. Foi um momento único, tocante, lindo.
Já me vou habituando a não me surpreender com esta família.
Um beijo minha querida.

Matalonga Jorge disse...

Espero que a despedida de BERLIN não acabe com as novidades que aqui vou acompanhando espaçadamente..., mas com interesse!

Gostei da imagem e do texto.

Ana Rita disse...

Para além de ter imensas SAUDADES TUAS, MESMO IMENSAS!! tambem tenho saudades dos teus desenhos =D

Por isso vamos lá a actualizar isto, sff. :)

Wellington Almeida disse...

Olá Camila, tudo bem?

Queria ter te enviado um mail mas não o encontrei por aqui...

Cheguei ao teu blogue através de uma reunião Erasmus com a Denise no qual um colega da Faculdade (Flávio) mencionou teu blogue. Acho até que fomos colegas no primeiro ano (2007) em alemão A1, se não estou em erro, pois teu nome naquela turma é me muito familiar.

Bom, o que me traz aqui é justamnte o facto de tu teres ido à Berlim fazer Erasmus.. concorri a Viena mas de última hora decidi que queria ir para Berlim e a Denise está vendo se consegue uma outra vaga para lá (a única já foi atribuída ao Flávio). Mas acontece que tou super inseguro com a história da língua..quero dizer, eu faço A2 aqui, acho que qdo foste pra lá tbm estava neste nível certo? Como foi a tua experiência, sofreste muito ao princípio, conseguiste acompanhar as aulas, tiveste que fazer TODOS os testes em alemão?

Desculpa este relatório mas queria saber um pouco da tua experiência pois tenho medo de chegar lá e ficar completamente perdido...se puderes me dar uma ajudinha aí, ficaria muito agradecido.

Abraços.

Anónimo disse...

Por que paraste? Pena...
Beijo carinhoso.

Camila Reis disse...

Anónimo, obrigada!