quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Soldadinho de Espuma

Metro em Berlim - registos do meu diário gráfico

Devia ter uns dezanove anos de idade. Uns dezanove anos tímidos, inseguros de calejar os olhos dos outros e os gritos de outras bocas. Mas ali estava. De mochila caída entre as pernas, pesadas das botas que carregavam e do seu aperto. Os verdes dançavam na roupa demasiado grande para o seu corpo.

A nacionalidade estampada nos ombros mostrava um orgulho e uma vontade que eu não encontrava nos próprios olhos do rapaz. Mas ele ali estava. A caminho de outros verdes, de outros gritos, de outras roupas pesadas.

A dada altura, o rapaz tirou cuidadosamente do seu bolso um embrulho carinhoso. Um lanche que imagino ter sido preparado por uma mãe condescendente ou um pai vaidoso. Imagino o que o rapaz sentirá neste momento. Na sua idade os rapazes na Alemanha são obrigados a optar entre o serviço social e o militar. Especulo sobre a razão que o terá levado a escolher o militar. Terá sido vontade própria? Terá querido surpreender alguém, ou surpreender-se a si próprio?

Eu só o vi por breves minutos da minha viagem de metro. Não saberei nunca as motivações da sua vida. Sei apenas ter visto o peso dos seus olhos, das suas botas, da sua mochila, da sua roupa demasiado grande para o corpo amedrontado.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Frankfurt - registos do meu diário gráfico

sábado, 31 de janeiro de 2009

Vista para Jänger Straße, Mitte; Berlim - registos do meu diário gráfico

domingo, 25 de janeiro de 2009

Rio Spree; Berlim - registos do meu diário gráfico

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ilustração para o poema "Cruel Bed" de Sofia Freire

CRUEL BED

I have a very cruel bed
She plays around with my sleep
… ‘cuz I can’t find you in it

I’ve fumbled every inch
Pretending about your skin
Wrapped with the sheets, I take a spin. Or two
Playing inside of your arms, I imagine. Or I remember.

But she is really, really bad
She should have you dreamin’ in
… As I'd fall asleep
I'd be just as far as you


Poema de: Sofia Freire





quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Orfeu debruçado sobre o corpo de Eurídice; Ópera "Orpheus und Eurydike" no Bode-Museum - registos do meu diário gráfico

"Através de povos insubstanciais e fantasmas dos sepultados,

chegou ao pé de Perséfone e do senhor que governa

o desagradável reino das sombras. E dedilhando as cordas,

assim cantou: 'Ó deuses deste mundo situado sob as terras,

no qual voltamos a cair todos quantos nascemos mortais,

se é lícito e permitis falar verdade, e pôr de lado rodeios e

falsidades, não desci aqui para ver as trevas do Tártaro,

nem para acorrentar as três goelas desse vosso monstro,

o rebento da Medusa, cobertas de víboras como pêlos.

A razão da minha vinda é a minha esposa, a quem uma serpente,

ao ser pisada, injectou veneno, roubando os anos juvenis.

Quis ser capaz de tal suportar, e não negarei que o tentei:

mas o Amor venceu. Famoso é o deus na região superior;

se o é também aqui, não sei.”

in Metamorfoses, de Ovídio (Livro X; vv14-27)

A Morte entregando Eurídice ao veneno da serpente; Ópera "Orpheus und Eurydike" no Bode-Museum - registos do meu diário gráfico
Pórtico no átrio de entrada do Bode-Museum - registos do meu diário gráfico
Carlos Bica no contrabaixo; concerto no atelier de Thomas Schiegnitz - registos do meu diário gráfico
Carlos Bica, Chris Dahlgren e dois contrabaixos; concerto no atelier de Thomas Schiegnitz - registos do meu diário gráfico

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Órgão na Igreja Kreuzkirche; Dresden - registos do meu diário gráfico

domingo, 30 de novembro de 2008

Haus der Kulturen der Welt; Tiergarten, Berlim - registos do meu diário gráfico
Nefertiti; Altes Museum, Berlim - registos do meu diário gráfico

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Mercado de Natal; Potsdamer Platz - registos do meu diário gráfico
Já começam a aparecer os Mercados de Natal; Potsdamer Platz - registos do meu diário gráfico

sábado, 8 de novembro de 2008

Não me lembras o céu

Hoje as nuvens conseguiram separar-se um pouco umas das outras. Formaram-se letras no céu, desenhadas por lutadores raios de sol que a muito custo se fizeram ver. Por breves momentos, o Sol ganhou à teimosia do céu e conseguiu, finalmente, acariciar suavemente uma lisboeta saudosa da sua luz.

Durante as últimas duas semanas, nada mais se estendera senão um tecto impenetrável sobre toda a cidade de Berlim. Não encontrava sombras que testemunhassem a presença  das pessoas e dos magníficos edifícios das grandes praças ou das ruas estreitas. Só tinha as folhas outonais, perdidas nos passeios, para me relembrar as cores quentes da luz que deveria encontrar no céu.

Às vezes sentia nos ombros a pressão deste céu cinzento, um peso que, apesar de tudo, não parece entristecer completamente estes lugares. A cidade continua linda, só não é amada. As catedrais parecem querer erguer-se aos céus, como uma criança que se estica puxando as saias da mãe e não compreende por que não é merecedora da sua atenção.

Nunca havia sentido este desejo de subitamente parar na rua e, com a mesma vontade que existiu há dezanove anos nesta mesma cidade, derrubar este muro feito de densas nuvens que não me deixavam vislumbrar ínfimas partículas de um azul longínquo.

Submetida à minha incapacidade de abrir esta janela imensa, que não diferencia claramente a noite do dia, surge-me à memória a sua definição cantada “Não me lembras o céu / Nem nada que se pareça / Não me lembras a Lua / Nem nada que se escureça”*.

Mas hoje as nuvens cederam. E por breves instantes pude idealizar o brilho das coisas, o seu sorriso luminoso, num momento único. Quase perfeito.

*Donna Maria, "Quase Perfeito"

Alt - Moabit, Berlim - registos do meu diário gráfico

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Interior da Igreja/Galeria de Arte St. Matthäus - registo fotográfico.
Exterior da Igreja St. Matthäus - registos do meu diário gráfico
36'50" Lost, 10º episódio; 3ª temporada - registo do meu diário gráfico.

É mais fácil acreditar em milagres do que duvidar do Amor. É mais sensato negar as maldições e entregarmo-nos à sorte que sabemos guardada para nós.

A luz brilha doutra forma no espaço mais profundo nossos olhos, em concordância com a nova cor que o céu faz abrir. E se um espaço verde se abre em frente, uma nova liberdade ressurge da prisão dos medos.

Se um dia julgarmos estarmos entregues à insanidade que os perigos – ou a possibilidade de perigos – nos fazem sentir, então é hora de nos prepararmos para um momento de expansão, a chamada pura ‘diversão’, por mais anacrónico que possa ser. É pela bizarria desse instante que se abrirão novos caminhos para enfrentar tudo o resto. E aí acontece o milagre.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A quem deixo o meu especial obrigado: Carlos Bica, no contrabaixo, no concerto em Werkstatt der Kulturen - registos do meu diário gráfico.
Concerto em Werkstatt der Kulturen. Carsten Daerr - registos do meu diário gráfico.
Concerto em Werkstatt der Kulturen. Kristiina Tuomi - registos do meu diário gráfico.
Concerto em Werkstatt der Kulturen, Berlim. Kristiina Tuomi na voz, Carsten Daerr no piano e Carlos Bica no contrabaixo - registos do meu diário gráfico.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

  video
Primeiro registo audiovisual.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pormenor de friso do Grande Altar de Pérgamo e escultura romana; in Pergamonmuseum - registos do meu diário gráfico
Paisagem industrial; vista a partir do Kulturforum - registos do meu diário gráfico

O Homem é todo igual

O Prof. Dr. Paulo Alberto bem dizia nas suas aulas, a propósito do estudo das tragédias gregas, que nelas se representava toda a condição do ser humano. Que todas as particularidades, reacções, atitudes do Homem se afiguravam ali, mesmo através das cenas mais espectaculares, mais viscerais ou rebuscadas. Acrescentava “Mesmo que um dia nos estejamos a alimentar a comprimidos, seremos sempre assim, enquanto seres humanos”, com todos os condicionalismos inerentes à nossa vida efémera, na qual sentimentos e desejos se vão debatendo, dentro de nós, com o poder racional que nos foi atribuído.

Eu debruçava-me sobre os textos e tentava ler as entrelinhas das estórias da História da Humanidade em forma de arte. Tentava imaginar a música e as danças de figuras mascaradas. Via um Édipo dilacerado pela própria culpa que não escolheu ter. Subjugado à condição humana de não poder saber tudo. Via um Ájax confrontado com uma verdade dolorosa: a de perceber que já não é o seu tempo. Ensinando a todos nós o discernimento que é preciso para reconhecer que tudo na nossa vida tem validade.

Teremos sempre as nossas diferenças culturais, sociais e temperamentais, mas, mesmo dispersa, seremos sempre uma unidade. Nós, enquanto seres humanos. Semelhanças e diferenças quem poderá dizer se boas ou más? Estão em toda a parte e em todos os tempos da nossa singela (ou grandiosa?) existência.

Parece fazer parte da nossa característica cultural, enquanto portugueses, de nos encararmos pequeninos, desorganizados, preguiçosos, aldrabões ou incompetentes. Eu chego a Berlim e vejo alemães com o mesmo sentido de humor, atrapalhados da mesma forma com o caos burocrático indispensável para registar tantos habitantes, tantos contribuintes, tantos estudantes, tantos demais processos. Sou atendida por variadíssimas pessoas, mais ou menos carrancudas, mais ou menos conhecedoras da língua inglesa. Aqui também vejo os percursos das pessoas nos passeios, desviando-se dos mais alcoolicamente perdidos ou espalhafatosos. Apesar da prostituição aqui ser legal, só o é em casas registadas. Mas vejo, igualmente, as prostitutas em certas ruas, onde toda a gente sabe que estão e onde a autoridade não se apresenta.

As cidades e os países não conseguem ser só feitos de terra. É preciso quem a ame, quem a cuide, a estime ou a transforme. É preciso, às vezes, dar passos em falso, recuar, olhar de novo, para uma globalidade. E ter esperança também. Mas acima de tudo, um amor dignificante e uma atitude confiante.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Schultheiss B - registos do meu diário gráfico
Schultheiss A - registos do meu diário gráfico

Heimlich

   
   Não sei outro nome que designe as cervejarias características de Berlim que não o da cerveja 'Schultheiss'. Existem em toda a cidade e à porta têm sempre o mesmo símbolo (o desta tal cerveja).

São sempre lugares mais frequentados por homens, mas não é estranho ver mulheres, nem como clientes, nem como funcionárias. O que é estranho, ao que parece, é ver nelas nova clientela.

Qualquer um que aqui entre conhece toda a gente, mesmo que a casa esteja cheia. Todos se cumprimentam em voz alta, em altos gritos em jeito alemão de falar contente, ou simplesmente com um à-vontade próprio de como quem entra em casa sem precisar de dar grandes satisfações. Há sempre máquinas de jogos e ‘jogatanas’ particulares. Há muito álcool (às vezes só álcool) e em quase todos os “fumadores são bem-vindos”. São casas de vícios sem preconceitos ou limitações que abalem a disposição.

É tão anormal ver nova clientela que assim que entrei na cervejaria onde estou agora, senti logo o ar surpreendido das poucas pessoas que nela encontrei. Tentei pedir a ementa e acabei por pedir só uma cerveja pequena. Foram todos muito amáveis, entretidos a tentar compreender alguém que arranha um alemão e um inglês ao mesmo tempo.

Sentei-me numa mesa, rodeada de mapas, cadernos e jornais. Assim que acabei a minha cerveja, o senhor, que jogava ao balcão com a barmade e outra mulher, olhou para mim muito naturalmente e, em alemão, pediu mais uma cerveja para mim. Muito atrapalhada, com a situação e com a língua estranha que estava a falar, adverti que precisava de me ir embora em pouco tempo. Despreocupadamente o senhor respondeu que não havia problema, afinal uma cerveja pequena bebe-se em dois minutos!

A barmade veio até à minha mesa com a cerveja e assegurou-me de que era uma atitude normal, a do senhor, eu não era dali e estava ali sozinha a precisar de um gesto simpático.

Observo agora este grupo que joga ao balcão. São pessoas tranquilas, de uma simpatia altruísta de quem não deve nada à vida, de quem também não espera nada.

Houve um barulho estranho, mesmo agora, vindo da rua. A barmade ajeitou o casaco e foi certificar-se de que estava tudo bem. Este é o seu espaço e a vida, os seus momentos. O que interessa é cada minuto, cada lançamento de dados, cada bebida que serve, cada cigarro que acende.

Apesar de tudo isto, não há passividade, apenas vivência. É bonito de se ver este bem-estar com a vida, o “Hallo” que se recebe com um sorriso – embora seja diferente do sorriso latino, do português.

Qualquer pessoa se sentiria bem aqui. Eu acredito nisso. Pelo menos se souber, como eu, que irá passar aqui os próximos seis meses da sua vida.

Há um termo em alemão, bastante curioso, que acredito ser capaz de caracterizar o sentimento que trago comigo nesta cidade, nestes lugares: Heimlich. Este termo pode ser simultaneamente traduzido como: secreto, clandestino, estranho, íntimo, familiar.

É uma estranha casa esta que tenho agora. Um lugar que me acolhe doce e pacificamente, um berço tranquilo onde me posso sentir protegida num ambiente desconhecido. Rodeada de palavras carinhosas que não compreendo, por estados de espírito que não são meus, mas ainda assim partilho deles.

Obrigada Lisboa, obrigada família e a todos os que me são familiares e a minha casa, por saber o que é o meu lugar, aquele ao qual se volta sempre. Obrigada Berlim, obrigada aos berliner, por saber o que é estar estranhamente noutra casa, noutra minha casa, da qual se acaba sempre por desaparecer.

Prólogo

Entrei no avião. Já atrasada e sem lugares reservados no meu bilhete de companhia low cost, preocupei-me em arranjar um lugar disponível o mais rapidamente possível.

Passei os olhos, então, pelas pessoas, pelos lugares vazios, pelos espaços intermédios. Reparei num jovem adulto, com imagem de jovem mais pelo boné que levava do que pela barba que tinha. Abanando a cabeça ao som de uma música que ninguém ouvia, mostrava ser um amante do rock, quem sabe até se não mesmo um artista desse ramo.

Reconheci o senhor da primeira fila, encostado à janela. Estava agora sentado, com o ar duro com que o vira da primeira vez, e olhava pela janela que nada mais mostrava senão a sinalética indecifrável das pistas do aeroporto. Reconheci-o de o ter visto há pouco, na zona restrita dos check-in, sentado também, mas numa cadeira de rodas empurrada pela hospedeira da companhia.

Acabei por me sentar ao lado de uma mulher timidamente simpática, de um cabelo loiro encaracolado, embrulhado em si mesmo. Era mãe, mas não de alguém por nascer, a criança devia ter já os seus três anos de idade. Um menino adorável com o cabelo loiro imaculado e uns olhos azuis turquesa muito grandes e curiosos.

...

Se eu quisesse tê-los-ia encontrado a todos, ali, comigo, no avião. Não entrou mais nenhum passageiro depois de mim, nenhum se atrasou mais do que eu... em rigor, isso faria de mim uma ‘Hurley’, aquele que ‘estava num dia de sorte’ e que trazia consigo o peso de uns números condenados. Capacidade incrível a desses números de fazer pensar estar em si a razão de tantas desgraças.

Como ele, também eu não sei para onde vou ou onde estarei quando chegar, embora conheça as coordenadas. Também dependo da sorte e do azar, mesmo não sendo passiva com a vida. E o azar e a sorte acontecem em paralelo com as consequências de decisões, tornando-se em momentos que vão compondo a nossa vida. Entre estes momentos, entre outros ‘acasos’, vamos escolhendo ou, sem querer, conhecendo vários destinos, situações e lugares.

Um destino, um destino qualquer, pode ser a nossa ilha. Um espaço e um tempo reais que nos fazem explorar e superar o nosso próprio imaginário. No ‘eu’ mais imperturbável ou no ‘eu’ mais inseguro é depositada uma dúvida. São precisas as oportunidades para se decidir e os momentos em que a sorte falará mais alto.

Apesar de atrasada, cheguei a tempo do avião que me levará para um lugar que não conheço. Ainda bem que hoje é o meu dia de sorte.